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Sobre despedidas

Ilustrações de  Serena Curmi

De todos os gestos inevitáveis da vida, se despedir é o pior. E se a expressão máxima disso é quando alguém que a gente ama morre, pedaços menores desse sentimento visitam a gente todo dia, sempre com pesar. Se despedir da roupa que não serve, do trabalho antigo, dos caminhos que, até ontem, eram de todo dia. Passar adiante a casa onde você já viveu. Transformar um amor em passado. Como é difícil suerar o apego.

No fim das contas, é tudo sobre deixar pra trás um pouco do que você é, abrir mão de algo que compõe a sua existência. A sua casa é você de certa forma. Assim como seu amor, sua roupas, seus caminhos. A vida que você leva é você, mas não vai ser você pra sempre. Pelo menos não a de hoje. Uma nova vida vem em partes e te transforma. Muda seu olhar, suas cores, suas músicas, seus sentidos, suas saudades. Muda o que você vai fazer no sábado à noite e, quando se menos espera, muda até o que você pensa de si mesma.

Quando a gente tem que se despedir de um ano, mesmo sendo só uma contagem de tempo na prática, muito desse balanço de perdas vêm à cabeça, porque a gente vê toda despedida como uma perda. Nem sempre é assim. Na maioria das vezes, uma despedida é uma mudança pro que vai e pra quem fica. É uma forma de se abrir de novo pras surpresas e dizer um oi pra um pedacinho de nova vida.

Vamos sentir menos dor nas despedidas e mais esperança. ;)
14

Só uma ceninha

Vocês sabem o que a menina disse pra ele? Pisquei o olho na hora da cena, foi só um segundo. Parece que foi nesse tempo que saiu a palavra que fazia todo o resto fazer sentido. Talvez ela nem tinha dito, talvez a cena não faça mesmo sentido, porque o mocinho virou as costas e qualquer um diria que aquela era a hora do beijo.

É possível que a fita tenha pulado as pazes e mostrado a nova despedida, do final. Também pode ser que a gente não saiba assistir a uma história, porque precisa entender todas as palavras pra não boiar. Precisa definir os personagens e prever cada gesto, precisa saber a hora do beijo e estranhar o abandono, praguejar o roteiro e pedir a quem tá do lado um resumo da cena.

A gente não sabe nem ver um filme, quanto mais, a vida correr.
1

Do porquê de sairmos inteiros

Devemos nos orgulhar da quantidade de merdas que conseguimos fazer sem perder um membro por cada uma. Existe uma lógica da superação que inverte qualquer conversa de darwinismo que já se possa ter ouvido em paradas de ônibus, que faz com que arrancar pedaços de si mesmo seja só uma metáfora do sofrimento. Faz com que passar por caminhos de arame farpado não te tire a pele do lugar, não te arranque a camada de fora, mas te dê morais de histórias pra contar no lugar de conselhos.

Fugas épicas de problemas medíocres são o que todo mundo precisa pra ter um protagonismo eventual. A certeza de sair da história com nenhum ferimento, mas roupas rasgadas e sujeira no corpo é o que basta pras câmeras que a gente cria, pros amores que a gente queria, pra que os banhos quentes sejam merecidos.

No meio de tantos falsos riscos de tantas sagas curtas de tantas histórias esquecidas, os braços e pernas que ficam não contam tanto do que se viveu, não tanto quanto as roupas rasgadas.
7

Do amor

Sei lá o que é amor falso, sei o que é o verdadeiro. Sei do que é.

Sei que gosto tem porque tantas vezes, com medo de não sentir, abri a boca e fechei os olhos esperando as porções dele que vinham do céu. E, pasmem, o amor é feito de um bocado de palha, que trava na garganta e esfria a barriga, te fazendo girar pra qualquer lado na expectativa de que a agonia passe. E numa esperança contida, por medo de não sentir, de que fique até ser tarde.

Amar é mastigar algo que nunca dissolve.

Amor é feito da tremedeira que se nega ter na hora que se tem e todo mundo percebe. O amor é de palha com gosto de gelo. É, sem que ninguém tivesse mandado, ser o que o outro precisa. Sem, sequer, que o outro saiba, existir e esperar por ele, sem, sequer, que você saiba que espera.

Amor é telepatia.
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{parênteses} Marta

"Cozinhar teu feijão foi meu mais longo emprego. Atender teus chamados de noite, pelo contrário, nunca foi dever. Todas as variações do teu cheiro eu conheci, e não houve uma - depois do expediente ou em dia de missa - que não me apaixonasse mais.

Não sei se por vontade ou resignação, até o fedor das tuas farras me alimentava. Viver com você foi a maior prova do estômago que eu tenho. E do amor que eu tive."

Marta falou no tom brando de sempre, enquanto ele chorava como quem sabe que essa vez não é igual às outras.
7

Dia doze


Doze de junho sempre foi dia de Bárbara paquerar no ônibus. Até saía de batom, até retocava antes de voltar pra casa. Na ida ela não tinha muita chance de reparar nos possíveis pretendentes do coletivo, é tudo muito cheio, mas na volta, quando vinha sentada, cada moço que entrava era uma possibilidade de romance, uma palpitação, uma passada de mão no cabelo. Um nervoso contido de quem espera, no resto de dia, encontrar alguém pra, no dia seguinte, dizer que encontrou.

Não que ela não procurasse um namorado no resto do ano, mas o ritual e a ansiedade eram bem peculiares desse dia. Uma vez até deu certo. Segurou a pasta do rapaz, que puxou conversa, que sorriu e elogiou o batom. A conversa era tão boa que Bárbara só desceu no terminal, umas quinze paradas depois da sua. Ele, que descia ali mesmo, chamou prum sorvete - ela riu porque fazia 10 graus - então os dois sentaram no meio-fio pra decidir o que fazer e acabaram ficando por lá. Foram namorados por umas duas horas.

Sequer trocaram telefones, mas ela nem se importou muito. Dia treze é dia treze, dá pra agüentar sozinha. No ano seguinte ela não esperava reencontrar esse seu namorado casual, mas tinha esperança de que o raio caísse de novo por ali e aparecesse outro namoro nem que fosse no mesmo esquema. No outro ano também, e no que veio depois.

Dessa vez Bárbara esperava que o ônibus estivesse vazio e chegasse logo. Queria assistir TV, passar uns cremes e dormir. Depois de uns anos aprendeu a viver pros outros dias, a catar uns amores fora da data, a deixar de lado a tradição do dia doze.
6

{parênteses} Virgínia

"Eu te pediria pra ficar. Mesmo que não pensasse no nosso amor, pensaria no trabalho que dá apagar as tatuagens. Pediria se você fosse outro, pediria se fosse ontem, talvez. Se tivesse vontade, não me importaria com dignidade, honra ou qualquer outra coisa em que se pensa ao jurar à bandeira, imploraria. Me jogaria nos teus pés e seguraria a barra da tua calça antes de pensar se isso é mesmo necessário.

Acontece que eu não quero."

Virgínia falava sem que ele pudesse escutar, já do outro lado da rua.
5

Pé de feijão


Crescer é ver os cômodos ficarem pequenos e a vida parecer mais curta. É ouvir mais desaforos e aprender a ignorá-los. É escolher o que come. Escolher pra quem dá. Chorar porque não soube escolher também é parte do contexto.

Ter correspondência de banco no seu nome, ter que dar bom dia aos vizinhos, ter dor nas costas. Quando poderia estar dormindo, ter que ligar pra marcar as próprias consultas médicas. É continuar acreditando que todo pesar é pior à noite, porque, por mais que se cresça, nunca some o medo dos monstros no escuro.
25

À espera

Acordou cedo, limpou a sujeira que não fez, parou pra pensar se em algum dia tinha escolhido fazer isso. Era mais fácil ter escolhido morrer. Comeu qualquer coisa, saiu pra trabalhar. Voltou e a sujeira parecia pior que antes.

Tomou banho e dormiu vendo TV. Como nunca assiste mais que o primeiro bloco, sempre perde os finais felizes. Talvez na esperança de viver um seu, e de se surpreender quando ele chegar.

12

{parênteses} Ana

"Que nosso romance sazonal ia acabar, eu já sabia. Sabia disso também na penúltima vez e na que veio antes dessa. Soube desde o início. Só que você sempre voltou, e eu - bumerangue - te dava as tripas e o coração, que você deixava na cama antes de sair.

Hoje a conversa é igual, mas, que engraçado, eu acredito nesse fim. Não porque você pareça convincente, muito menos sincero, mas porque eu pareço mais leve.

E se quiser, um dia, voltar, vai ser bem vindo. Como hoje."

Ana falava olhando pro teto, enquanto ele se vestia e colocava a aliança. Rápido, pra não perder o ônibus.
14

A pequena fábula das roupas malditas

Ouvi falar de um mundo distante onde há duas instituições básicas: a roupa e a dona da roupa. Nesse reino, antes pacato, começou uma espécie de revolução, onde as tais roupas decidiram ser agora donas de suas donas. Diziam, com razão, ter custado muito do dinheiro que as donas nem sempre tinham, levantavam - como cartazes - suas próprias etiquetas, uma mais tradicional que a outra. De repente os nomes e as identidades das roupas se sobrepuseram aos de suas donas.

As donas, atordoadas, não se livravam das roupas, não conseguiam. Jogavam mais e mais peças sobre si, pareciam esperar que tantas roupas juntas entrassem em conflito, se perdessem em sua rebeldia, mas não conseguiam. As roupas, todas juntas, pareciam se condensar. Se tornavam homogêneas - não só as que vestiam o mesmo corpo, mas tantas outras de tantos outros corpos, que já pareciam igualados. Cada um com um rosto, que já parecia paisagem.

As roupas, então, passaram a determinar os poucos batons, cabelos e expressões que poderiam ser usados por suas donas. As roupas queimaram livros subversivos, destruíram roupas dissidentes. Quando mais nenhum dano parecia possível, as roupas promulgaram que não mais seriam coisas, quem as vestisse é que seria.

Por fim as roupas colaram na cara das suas donas um sorriso branco e satisfeito, enquanto nos braços, penduraram bolsas quadradas e raras. Fazia parte da composição.

Diz-se por aí que hoje as roupas controlam tudo nesse tal mundo, e todas as donas de lá são donas de coisas iguais, porque tudo o que elas tinham de diferente - por dentro e por fora - foi confiscado. Há quem jure que ouviu as roupas falarem em lobotomia pra um futuro próximo, mas essa parte já deve ser invenção do povo.
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{parênteses} Lúcia

"Te dei do bom e do melhor em afeto e obediência, guardei todos os nãos que me vinham à garganta e - confesso - já não me lembro do dia em que te mostrei meu primeiro defeito. Mas sei que faz tempo. Depois desse, outros vieram, quando eu não tive nervos pra segurar, saíram. Na hora não vi, e agora uma dúzia deles me vêm à cabeça.

Se eu soubesse por qual desses você vai, talvez pudesse impedir."

Lúcia dizia enquanto ele colocava a peça que faltava na mala. Na porta olhou pra trás, mesmo assim não deixou de ir.
9