Até 2 meses atrás, eu nunca tinha visto nenhum episódio de America's Next Top Model. Mesmo o programa já estando no ar desde 2003, eu só conhecia de ouvir falar. Aí, num sábado em casa, resolvi clicar no play do Netflix. Pronto, depois disso, devorei as três temporadas que tem lá e ainda catei a última na internet pra ver.
Fiquei fascinada com Tyra Banks, de verdade. Eu só conhecia a moça de ver sites de fofoca rindo dela, chamando de histérica, exagerada, mal vestida; eu própria, quando era muito bobinha, me via achando esse tipo de coisa divertida.
O fato é: Tyra Banks é um gênio do empreendedorismo, de verdade. Não só no que se refere a criar e manter negócios, mas ela conduziu a carreira sempre de uma maneira muito inteligente. Primeiro de tudo, começando como modelo, foi pra Paris Fashion Week, estudou o estilo de desfile de cada designer e, pra cada teste que ia, apresentava exatamente o que a marca esperava. Conseguiu agendar 25 desfiles, um número que nenhuma modelo iniciante jamais tinha pensado em atingir, muito menos sendo uma mulher afro-americana num mercado ainda fechado e preconceituoso.
Alguns anos depois, Tyra ganhou peso e já não se encaixava no padrão magérrimo das modelos nas semanas de moda. Voltou pros Estados Unidos, venceu o Miss Estados Unidos - sim, concurso de miss -, o que poderia ser um suicídio na carreira de qualquer modelo, mas a mocinha, sempre muito esperta, fez uma limonada e tanto com esses limões. Usou muito bem o apelo popular do concurso e as novas formas, mais voluptuosas. Foi a primeira mulher negra a aparecer na capa da GQ, da Sports Illustrated e no catálogo de lingerie da Victoria's Secret.
A maioria das coisas que Tyra quis fazer na carreira, ela mesma bancou, produziu, de um calendário com fotos dela na Jamaica a programas de TV.
Em 2003, criou o America's Next Top Model contra a vontade do agente dela, que acreditava que modelos eram frios e individualistas demais pra gerar histórias suficientes pra manter um reality show. O programa já vai no seu 22º ciclo e tá presente em 186 países.
No fim das contas, ver a trajetória dela é muito inspirador e assistir ao America's Next Top Model também rende alguns ensinamentos e tanto pra qualquer carreira, principalmente pra quem tá começando a trabalhar agora e ainda não sabe o beabá da coisa.
Trabalhar duro sem frescura
Não importa se você é um gênio no seu ofício, um talento ímpar para quem todos se curvam; ninguém quer empregar alguém que não quer trabalhar. Em várias sessões de fotos do ANTM, alguns aspirantes a modelo torcem o nariz pra maquiagem, se negam a mudar o cabelo, bufam porque não aguentam passar muito tempo tirando fotos (veja bem, o que você imagina que é ser modelo?) e simplesmente surtam quando alguém exige um tantinho de dedicação. Várias vezes a equipe tem que parar e conversar com os maravilhosos pra que eles entendam que, sim, esse é o seu trabalho e, óbvio, dá trabalho pra fazer.
Agora, volte pros trabalhos da vida real e cotidiana e pensa naquela pessoa que se queixa de tudo que tem que fazer, que recebe um problema pra resolver e devolve dois ou três, nenhum solucionado; que quer começar de cima e se vê acima de toda função que recebe. Insuportável trabalhar com alguém assim. Resumindo, baixe a bolinha e arregace as mangas.
Ser versátil
Não importa se o seu cargo numa empresa tem um nome específico que se refere a uma função específica. Você precisa saber fazer um pouco mais que isso. Existem modelos no programa que fotografam lindamente e andam na passarela como patos constipados. É claro que todo mundo tem um forte, mas é preciso ser minimamente razoável em outras funções ligadas ao seu trabalho.
Mesmo porque, dificilmente alguém faz só uma coisa hoje em dia. Na maior parte dos trabalhos (nem vou citar o extremo, que é quando você empreende), você tem uma gama de ações a realizar e, mesmo que a demanda não surja no dia a dia, quanto mais completo você é, mais elegível vai ser pra qualquer coisa que você desejar. Ser especialista numa coisa não compensa ser totalmente alheio às outras.
Saber se relacionar
Claro que o programa conduz as coisas de maneira a gerar drama. Eles querem conflitos e relações turbulentas - pro bem e pro mal - porque isso conduz o programa, mas é fascinante como algumas pessoas são um campo fértil pra problemas. Apenas não conseguem passar um dia sem arrumar briga com alguém ou sem virar a cara ou fazer uma brincadeira totalmente sem noção que incomoda todo mundo.
Parece que estar em pé numa sala, coexistindo com outras pessoas sem invadir o espaço delas de alguma maneira absurda é fora de cogitação. Isso vai desde falar alto quando os outros querem trabalhar (algo muito corriqueiro e fácil de fazer sem perceber) a falar coisas ofensivas pras pessoas como se fosse normal.
Seguir instruções
Aí o fotógrafo diz: vire pra direita e a pessoa não vira. "Faz cara de sério" e a pessoa não faz. "Mantenha a posição" e a pessoa se mexe. Claro que, na maioria das vezes, as pessoas não contrariam de propósito; elas só não tão se sentindo perdidas e não conseguem seguir as instruções. Só que elas precisam conseguir, faz parte do trabalho delas responder positivamente às direções que recebem.
Vendo o programa a gente vê que algumas só precisam de prática e evoluem com o tempo. Outras não têm jeito pra coisa ou têm tanta má vontade que não tem quem ajeite. Parte fundamental de qualquer trabalho é saber seguir as instruções que te passam. No começo é difícil, você precisa de ajuda (Google incluído), mas tem que se empenhar pra conseguir.
Ouvir críticas
Aí os modelos fazem as fotos e as fotos ficam ruins. Então os jurados dizem que tá tudo um horror e que eles precisam melhorar nisso e naquilo. Parte deles escuta e melhora na próxima sessão. Outros passam a semana inteira contestando de todas as maneiras o que os jurados disseram e atribuindo a culpa a tudo exceto a eles mesmos.
É aquela coisa. Você não entrou nesse programa? Então, parte-se do princípio que você quer receber essa mentoria. Se quiser ser bem sucedida lá, precisa fazer uma limonada com os limões que os juízes te derem. Não existe a possibilidade de contestar totalmente as pessoas que tão ali pra te julgar e ainda esperar receber boas notas delas. É ilógico em qualquer circunstância, no programa e na vida real.
__________________________________________________
Dia 5 de agosto começa o ciclo 22 do programa e já tô ansiosa pra ver. Alguém mais vê o programa? :)